sábado, 27 de agosto de 2011

Ábaco a Baco

Teu toque me arrepia em partes nada castas
Olvido-me do tempo em êxtase a passar
Corre bem mais longe! uma mão aqui não basta.
Dá-me este prazer ímpio e pífio de tocar!

E vista-se meu corpo envolto neste teu
Caia e morra Roma! este aqui é meu futuro!
Vai de mim a ti, a correr, o fluido impuro.
E o resto leve o Diabo! dele é a alma, o corpo é meu!

Perdem-se-me as contas, não perde-se o desejo
Cada vão instante redunda em bom ensejo
De dentro de ti ver-me e teu ser conspurcar.

Ínclito prazer que os gametas a nós dão!
Bebo-te  toda, o mais que posso, e eis que não
Fana-se este afã de a ti inteira devorar.

27-08-11

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Um tardio refluxo

Se tu suportas o que sobrevem a ti,
esperando que faça-se a justiça a seu tempo,
perdes algo irrecuperável.

Recresce sobre ti aquilo que a todos sucede,
Nada de mais, e o mundo o sabe, e sabe
que tu sabes a nada para o mundo.

Mas não tomes o despropósito por desaforo
Nada é intencionalmente desaforado
Tudo é vagamente desproprositado.

Do despertar ao adormecer, com ou sem estrela,
só há vontade em quem a toma
e faz-lhe sua, e a domina, e a satisfaz.

Se tu absorves tudo como esponja
sem reverter o fluxo num refluxo
chegará a hora de transbordares

mas tarde demais.


24-08-11

domingo, 14 de agosto de 2011

Poema do pórtico

Quem ama muito se equivoca ao pensar
demasiado em quem ama, ou pensa amar
Mas amor não é palpável, coisa densa,
E o de uns não é coisa assim extensa
Certo é que é ninguém capaz de amar,
Amar a alguém o tanto quanto pensa
Por ver-se o quão penoso é pois amar.
E perde-se esse amor que a alguém dispensa.

14-08-11

Modus operandi

Nunca me importa o não saber de nada,
Desde que eu seja quem me calhar ser.
Não é mister saber e não me enfada
Que haja aí mundos mil por percorrer.

O tempo é tudo, e tudo me faz nada.
Sendo assim, não há nada que perder
Recebo o que me vem, absorvo cada
Partícula do mundo sem 'scolher.

Não me ocupo em pensar no que virá
A relva do amanhã Deus nos dará
E vivo este comenos de harmonia.

Nasci, sem mais fervor, em berço pleno
Estou, onde estiver, mais que sereno
Viver é minha grã filosofia!

14-08-11


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Carta do Inferno

Não, senhores, não é possível viver assim. Aqui apenas se vive e, viver é condição sine qua non. Mas não se vive como é possível viver, na medida do possível. Falta algo mais, um quê de vida para esta vida e aos que nela vivem, ou parcamente tentam nela viver, já que não morrem nunca. Nem chamemos isto de vida, não se vive por aqui. Aqui somente se morre; morre-se sem nunca completar-se o fim da vida. Morre-se sem morrer. Este lugar nos é merecido segundo quem nele nos colocou. E a ele não somos nem um pouco agradecidos. Melhor seria não nos ter feito. Aqui tudo é isto que está à volta: nada e tudo existindo concomitantemente, entrelaçados numa dança em espiral.

Naturalmente não há dons, não há bênçãos, não há risos, não há chistes, não há alegria nem há alívio. Não há graça, nem há viço, apesar de tudo isso haver e estar, aqui e agora. Podemos vê-los em toda parte. Não estão em nós mas estão em algum lugar e a nós chegam pelos meios sensoriais sem que nós, inexplicavelmente, os sintamos dentro de nossos corpos e nos regozijemos com isso. Tudo está aqui e, ao mesmo tempo, não está. Há tudo isto e, ao mesmo tempo, não há nada disto. É uma fachada escancarada e adrede posta bem à vista, ante nossos olhos, mas é apenas visível, não se sente mas vê-se como se estivesse lá.

Só há a sensação de tempo perdido, de tempo gasto, de tempo que voa e escorre por entre os dedos sem que seja possível fazer nada enquanto este passa. Este mesmo tempo passa muito rápido para que possamos fazê-lo valer a pena, assim como passa muito devagar para se esperar que ele passe todo de uma só vez. Ledo engano nosso pensar que podemos aproveitar o tempo que aqui temos, mas a teimosia nos foi injetada para que tentássemos, mesmo sabendo que sempre fracassaríamos. Nos é dada toda a liberdade de ir a qualquer parte, porém toda parte é sempre a mesma parte, e as dores que sentimos em nossos corpos não nos permitem que nos movamos livremente sem nelas pensarmos. Este tempo é de uma cruel natureza que não se pode muito bem explicar.

Esta natureza cruel e nefanda, ora breve, ora prolixa, nos impede de fazer qualquer coisa e ao mesmo tempo nos faz sofrer cada segundo por estarmos parados dentro dela. Estamos completamente à mercê deste espectro controlador de nossas pobres e, infelizmente, eternas almas. Este tempo de aqui é quase uma personificação de um malfazejo demônio, que sabe de antemão quando vamos nos mexer, e age em malgrado nosso quando vamos fazê-lo, multiplicando a nossa, já multiplicada a incontáveis múltiplos, agonia, e, não nos deixando então fazer nada. Tudo aqui é pleno. Tudo aqui é sofrimento.

Cada segundo é um segundo a menos; um segundo a menos dentro de uma eternidade repleta de dezenas, de centenas, de milhares, de milhões, de bilhões, de quadrilhões, de decalhões, de zilhões deles, que muito penosamente e morosamente passam, um a um, na modorra eterna da contagem também eterna do tempo, também eterno. Eternamente a passar.

Neste inóspito lugar, não há a certeza da morte para nos garantir um fim de nossas mazelas, não há o descanso eterno por ela enganosamente representado, ou a ideia reconfortante da segunda chance. A remota possibilidade de ver-se longe e livre deste inferno não é nem mesmo remota, nem a palavra "impossível" representa tanta dificuldade quanto a necessária para dar sentido e/ou significação à altura de tão exígua chance de se pôr de corpo e alma para além destas infinitas e malogradas fronteiras. Uma vez aqui dentro, não se pode mais sair, e ponto final!

Este é um lugar de sempiternas penitências, de sempiternas mortes-vivas, de sempiternas dores, de sempiterna sofreguidão, de sempiternas maledicências, gritos, berros, e torturas de todas as sortes, as quais não se pode imaginar em seus reais termos; um lugar de sempiternas repetições das mesmas duras, perversas, malévolas, insípidas e inescrupulosas penas, aplicadas de forma ininterrupta por um algoz invisível, e que se estendem pelo tempo que for necessário para que a eternidade passe inteira, sem que nem um mísero segundo ou milésimo desta fique por passar.

Estas penas, senhores, não consistem-se de trabalhos físicos, ou açoites fustigando nossos lombos, nem máquinas apuradas e lidimamente preparadas para tortura onde nos retesam os membros até que estalem e sejam separados violentamente de nossos troncos estando nós ainda vivos. Não, não há nada disso! O que há é apenas nossos corpos inertes, lançados ao solo ardente, incadescente, pedregoso e irregular a sentir todas estas eternas sensações, como se a nós estivessem a arrancar a pele, a furar-nos os olhos, a decepar-nos os membros, a queimar-nos os dedos, a quebrar-nos os dentes, a nos crivar com mil agulhas toda a extensão de nossos corpos. São todas elas mescladas e intensas, perfazendo uma forma híbrida de sofrimento que não se pode aqui exprimir com débeis palavras de linguagem humana e deficiente. Todas estas analogias não logram êxito em representar de forma fiel o que se sente na pele aqui nestas profundezas.  

E o pior é que todas essas sensações físicas são e estão em nossos corpos para toda a eternidade. Estamos irremediavelmente condenados a jazer neste chão fervilhante e formigante, bombardeados pelas mais dolorosas sensações e sabendo que estas nunca terão um fim. A morte é simplesmente tudo aquilo que nós desejamos; a efetiva extinção de nossos corpos, almas e consciências para que não mais saibamos e sintamos este crudelíssimo castigo, que não sabemos quem criou, embora desconfiemos a possível autoria. Este é o pior dos lugares, o nosso é o pior dos pesares, o mais pesaroso e desesperado. Todas as corriqueiras representações deste horrendo lugar que se encontram nos mais diversos tipos de relatos escritos, sejam eles sagrados ou não, nem que fossem somadas todas e multiplicadas ainda pelo mesmo número de todas elas, não seriam fiéis o suficiente para transmitir uma ideia legítima, autêntica e exata do que nós, por toda a inútil eternidade, em nossas peles sentiremos sem termos um segundo sequer de descanso. Pois isto é o inferno: um lugar de sofrimentos eternos!

E nós somos tudo isto! Não se distingue mais coisa alguma em meio a este imenso tártaro calcinante onde nada e tudo, irritante e desesperadamente, dançam no seu eviterno frenesi, seu maledicente e mendicante movimento de espiral, arrastando a todos nós junto com eles, nos tranformando nesta perene massa disforme que rodopia no epicentro da única e legítima dor que pode haver. Não entendo como pode haver um lugar destes, como é possível ter-se criado com esta réproba finalidade de tortura eterna. Não entendo por que viverei sempre aqui. Só entendo que espirais não têm fim.

11-08-11

sábado, 6 de agosto de 2011

Tríade das incertezas

Há quem acredite nas certezas.
Para mim nada é tão certo
Quanto certezas não haver.
Exceto aquela,
a que dá cabo de nós todos.
Todo o resto é incerto.
Todo o resto é no máximo provável,
e, provavelmente, não se prova
Pode ser que provado já esteja
Por não haver lá prova em contrário.

Melhor não ter certeza,
ao final, poder ser que nada exista.
Este mundo é talvez um sonho
Ou certamente um pesadelo
Ou um misto dos dois
A mestiçagem é a tendência
E o pobre assassino furioso
Não sabe o que é não estar certo...
E por isso mata
E põe na cabeça a certeza de não mais ver o inimigo à sua frente.

Mas é importante crer no que não existe
Para que venha mesmo a existir
É importante crer no amanhã
Mesmo que este ainda não exista
Justamente para que ele possa vir a ser
E, sendo já presente, seja
Outro presente, o imaginado, ou outro qualquer que nos calhe,
Que nos devore e nos iluda
Sem termos de olhar para trás e ver
Que o passado foi bem pior
E mesmo assim não somos felizes hoje
Pensando no passado e passando o presente,
Projetando um futuro improvável,
E vivendo na incerteza do agora.

06-08-11

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

De como matar-se os trilhos

Estes pobres trilhos 'ruinados
Oxidam, metal dilatante.
Com cravo e dormente arrancados
Fundidos em terra distante.
Deitados ao léu, já sucata,
Que em quinze correram bastante
Com brutas máquinas frias
De chiados ardentes, arfantes,
Que ao Souza desciam à cata
De gente, de bicho e de azia
Nas vilas, à mil, zaragata!
Comboios enormes se via.
Nos trilhos, vapor fervilhante
Há noventa anos surgia
Caminho de ferro pujante,
Que morto aos oitenta seria.

04-08-11

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Apontamentos do Seminarista Infiel

Estive a descer um caminho que vinha das serras como um lucifer malsucedido, cahindo pela manhã. Como a ninguém pude ver, dei que nada testemunhou-se, e fui um demonio não-documentado durante o resto d'este dia. Hei d'um dia attrahir a attenção a Deus sem ter de diffamal-o? Sei que sou só uma sombra d'agua na areia da praia fria que logo some. Sou um lucifer malsucedido, mais que premido pelo limbo onde recolho-me.

Neste sertão de meu quintal não há mais que terra secca e quente grimpando-se por entre os cardos que escalavram meu abronzado terreiro. Nunca eu toquei com os pés o mar, apesar de tanto phantaseal-o. D'elle somente sei o que estão nestes rôtos livros, cartapacios, podres alpharrabios... Meu calcanhar rachado só sabe d'esta terra battida e pedregosa. Meus rudimentos de escripta me são de pouca ajuda aqui por este sopé de serra.

Queria mesmo era ser um menestrel, e correr estas veredas e, quem sabe um dia, ver com os proprios olhos o mar immenso e infinito, e poder compor algo que encerrase algum rhythmo, alguma metrica...Um martello agalopado, quem sabe. Um desafio, uma contoria de viola, dez pés a quadrão...

Qual? Estou cá me entregando a este demonio que me róe a fé. Por que deixei o seminario, meu Deus, por quê? Não te creio, nem te quero, tampouco te espero. Lucto contra ti sem cessar emquanto varro meu battente, emquanto passo meu café e quebro o garracho do fogareiro, emquanto lavo os pés, emquanto armo minha rede no copiar e fumo meu pito de olho nas rêses.

Pensas tu que é facil sustentar esta razão minha nestas alturas do seculo? A republica está ahi, e o Conselheiro arrebanha-te correligionarios por onde passa. São todos junctos um bando de mortos de fome e que acceitam o que melhor lhes confortar, as melhores promessas de salvação por meio desta lenta e irracional mortificação do corpo, esta posição callada ante a miseria d'este teu vasto sertão de terra queimada.

Estão encerrados todos num arraial em vias de ser explodido pelos ares por um esquadrão de infantaria da provincia. Que posso fazer a respeito d'isso? Elles vivem hypnotizados pela palra do Conselheiro, que lhes incute na mente que este é o apocalypse, que a Republica é o reigno de satã e outras coisas mais que eu não admitto como normaes, tanto que estou na posição em que estou. Não creio nestas historias, não senhor e, por isso mesmo, deixei de lado estas coisas de ser padre...

Quero mais é minha vida, que é só o que tenho, e é já ruim que só ella. Tenho lettras; coisa rara no rincão onde vivo. Raras lettras...

Mas não tenho a ti, que é quem sustenta a toda esta gente pobre e liquidada que se esgueira por entre estas pedras ovaes, estes seixos crepitantes, este cascalho miúdo que se eleva e irrita os olhos no sôpro do vento.
Não te tenho, Senhor, mas tenho ainda as incertezas, por isso estou neste isolamento voluntario. Comtudo, esta desconfiança me martella as idéas...

Por que deixei aquelle officio tão sancto para ser este demonio não catalogado ao pé da serra, accostado no oitão da casa? Um homem que estudou tanto para ser padre e abadomnou o officio por falta de fé... Não quero ser assim ,não posso ser assim...

O Conselheiro ainda me seduz com algumas de suas patranhas, tenho de dizel-o . Quem dera accontecesse  de volver o grande Dom Sebastião em uma madrugada d'essas e a mim me atravessasse c'oa poncta da espada sem dó ou piedade, tal qual fez a um bando de mouros immundos e infiéis ao norte d'Africa. Só ahi estaria eu punido por meu irremediavel peccado de negar a ti. Ó, Deus, onde estás que não te mostras? Talvez em Alcácer Quibir, juncto dos mouros...?

Os mouros não vos querem, ó Senhor, voltae! Voltae e trazei comsigo de volta o bom Dom Sebastião, e ahi, quem sabe, considerarei a ti... Preciso d'isto, Senhor, preciso crer! mesmo que não baste para nada, mas baste para a vida...

A 25 de septembro de 1895 da era de Jesus Christo, nosso Senhor.

04-08-11

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A filha de Oxyartes

Veste-se assim mais que formosa,
Mulher da tez em furta-cor,
Musa pagã despe o Senhor
Da santa fúria tenebrosa.
Se digo menos desmereço
Ao vê-la ao chão, musa ociosa,
Que desviou-me pelo apreço
A mim rogado e sem perdão
Desci dos céus. Mas que dirão?
Não soo bem? Nem me pareço.
Tornou-me a musa um deus pagão
Má hora em que eu dos céus me desço.

02-08-11

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Efeméride do Dia

Alguém roubou meu futuro
Ou talvez a mera capacidade
Que eu tinha de projetá-lo.

Me vejo hoje inutilizado
Por esta privação de adiantar os prospectos
De me antever, de me antecipar
De me perder no avenir,
De me iludir,
De me decepcionar.

01-08-11

domingo, 31 de julho de 2011

Noutras partes

Noutras partes está o desespero:
E vem silencioso como gato.
-Quem te disse que isto é teu?
Tudo é do mundo, tudo é de ninguém!
Não sou teu, e tu não és gato!
Só desabo quando estou só...
Quando estou só, então eu desabo.

Noutras partes está o riso:
Vem tímido como o misantropo,
Sai abafado e pouco espontâneo
Pela miríade de desditas insossas
Não rio assim, só os loucos riem de fato
Só rio quando não estou bem,
Quando rio não estou remediado.

Noutras partes está o medo:
Chega de chofre, qual o raio que parte em dois o carvalho,
Destrói, aniquila e degenera,
Impede todo o tipo de liberdade.
Não tenho medo de ser assim,
Só tenho medo de sentir medo,
Quando estou comigo mesmo é que estou amedrontado.

Noutras partes está a dor:
Esta está, e sempre esteve
É como o coração que bate,
E o câncer que dorme, tão tenro...
Não me dói tanto, só me dói quando penso
Só a dor abre meus olhos
Quando me dói, é por ter eu pensado.

Noutra parte está a mentira...
Melhor dizendo, em toda parte.
É como arma que falha, mas funciona de quando em quando
Minto descaradamente para mim mesmo
E faço com que eu mesmo acredite que sou
Tão interessante quanto estou sendo agora, mesmo não o sendo
Quando minto estou quase esgotado.

Noutras partes está o amor
Está...?

31-07-11

Agora

Estou irremediavelmente feliz!
Mas temo ser só agora.
Nunca dura por muito tempo, sabes?
Nunca durou, tenho de o dizer.
Problema é que não sei dar por isso
Quando vejo, já passou
Mas agora estou feliz,
Feliz e nem sei o porquê...
Que fique então gravado este momento irracional
Para a posteridade de meus lamentos diários.
E amanhã, ao anoitecer, quando quiser me matar,
Lembrarei de hoje e vou sorrir c'o canto da boca
Mas o agora é que me importa!
Vivo-o como vivo. Agora!
Feliz como nunca antes estive!
Irremediavelmente feliz!

31-07-11

Adeus, Ricardo Reis!

Quem te disse que assim é o mundo?
O mundo não se diz a ninguém
Nós outros é que dizemos o mundo
Por nós é que ele está dito
Pois só a nós interessa
Dizer o que aí já está
Dizer a nós mesmos o que dizemos ao mundo
Mas o mundo é isso: pérolas e porcos.
Digam-no os deuses, que a nós nos vigiam
E riem de nós por querer dizer muito
Do mundo desdito que nós já dizemos
Sem dizer que não basta somente dizê-lo
Nos falta fazê-lo.
Beija-me, Lídia...

31-07-11

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Do filósofo da má-fé

Como pode um homem maduro e de barbas se dar o trabalho de fazer uma coisa dessas comigo? Sempre pensei que o mais assisado a fazer fosse não se queixar tanto e deixar que o mal acontecesse por si só, como é próprio na ordem natural das coisas. Mas me vem este velho estrábico e me fala de má-fé e me põe nas costas o peso de toda a desgraça que tenho e que não tenho, que sinto e que virei a sentir, e, como se não bastasse, mui comedidamente lhe agradeço, porém já dando-lhe logo depois os mil louvores e âmens por aumentar ainda mais a angústia e me envergar ainda mais minha coluna, já tão enviesada. 

Não merece perdão este homem por ter, até os tutanos, o altivo pedantismo de ter a mim arrancado violentamente do limbo, onde eu era uma pobre e inocente vítima de olhos brilhantes, e me lançar desprotegido neste tártarto de culposidade, de errores e de faltas gravíssimas, me esfregando nas fuças que tudo isto tem como único causador e responsável ninguém menos que eu mesmo.
     
Por fim a este homem, depois de ter incutido em minha mente que sou o vilão da  história, que tenho toda a culpa no cartório, que sou eu e não outro o responsável pelo sim e pelo não do status quo, como já hei dito, agradeço, nem mesmo sei por que o faço, mas o agradeço mesmo assim, e com agradecimentos mui sinceros e até mesmo copiosos, pois, ao mesmo tempo que me fez ver com os próprios olhos que vivo no inferno desde que fui engendrado, igualmente me fez ver que sou, ao mesmo tempo, um homem livre, e a ser livre estou condenado enquanto conservar-me com vida. Ser livre: este é o preço que estou pagando por descobrir a verdade deste inferno. Estou repleto é de má-fé!

29-07-11

Orfeu e Eurídice

Aos mortos desce Orfeu,
A lira nada vale,
Calou-se o canto seu,
Que a Hades então fale.
E os pássaros e os regos,
Lamentam que ele pare,
C'os versos que lhos deu,
E morto agora cale.
Ligados pelo apego,
Pranteiam pois morreu,
Eurídice e seu par,
Mas tornam a se amar,
Já mortos, ela e Orfeu.

29-10-11

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Eu era um Meursault juvenil

Te decepcionei, não foi?
Sempre faço isso, deverias saber.
Se decepcionei a ti, peço desculpas...
(não sei se são sinceras, provavelmente não são)
Faço somente o que está ao meu alcance
mas faço-o porcamente...
Como tudo o que faço, pois
não ponho amor nas coisas que faço
nem nas pessoas - que se fazem sem que eu as faça.
Mas quando eu tiver algum amor,
quem sabe...

Me disseram que sou um Meursault juvenil
Estou quase acreditando nesta história
Tu deverias fazer o mesmo.

22-07-11

quinta-feira, 21 de julho de 2011

à-propos

Pergunta-me o que é viver e dir-te-ei que é não saber
Não é a vida certa, como a morte, nem se sabe se é tão viva
E sou tão novo pra sabê-la, sou tão homem pra vivê-la
Nunca desci tão baixo, nunca dormi tão forte, nunca fui sempre, sempre fui nunca...
Mas sempre digo nunca, e nunca sou o que digo ser, mas não sei se é assim sempre.
Será mesmo isso?
Não sei, só sei que vivo,
E viver é não saber.

21-07-11

terça-feira, 19 de julho de 2011

Objecto quase

Muito bem! cala-te que ouvir-te eu não mais quero
Demais m'irrita este teu ar de quero mais
Mui me desgasta, este colóquio e me desfaz...
O meu desdém, e o teu também, é o mais qu'espero
(mas tanto faz)

Quero alhear-me do que é teu, do mundo austero
descer do altar ao conjurar-me sem ter fé
Desejo um mundo onde só eu sozinho impero
Ser mais por mim que por alguém que meu nem é
(e nem o quero)

Mas não me adianto, não me lanço no projecto
e circunspecto estou deixando agora o altar
Bem mais que um homem, sou eu bem mais, quase objecto
E me persigno - é meu prazer me persignar.
(e com mais plectro)

Agora danem-se, meus bons samaritanos!
A vós vos dou vosso Sansão e os filisteus...
Guardai-os bem pois vou-me embora e sem mais planos
Minhas verdades são só minhas, planos meus.
(dirão os anos)


19-07-11

Stà fermo

É coisa de ser vivente
Viver até que se morra
Por mais que o tempo não corra
Morrer se espera somente
E vive o ser já dormente
Fingindo ao mundo de envolta
Que bem está, segue em frente
Por dentro a hera lhe abrota
Librando o exíguo que há
'steve ele aqui? pouco importa
estando ou 'stado, não 'stá.

17-07-11

sábado, 9 de julho de 2011

Tratado pós-moderno de antissocialização

No mundo pós-moderno de jovens pós-modernos
É proibido fazer com as próprias mãos,
É proibido ser feliz,
É proibido acreditar em qualquer coisa,
É proibido projetar o futuro,
É proibido saber onde se está,
Quem se é e para onde se vai,
Ou sorrir cortesmente ou espontaneamente.
Nem consegui-lo, aliás, é permitido.
Mas ama-se superficialmente sem amar
Obriga-se o desgostoso a mais gostar
Toma-se remédios verdes e brilhantes
Cápsulas amargas que entalam na garganta
Em caixas verde-e-brancas ou em tubos laranja-translúcidos
Onde se lê em letras pretas bonitas e graúdas:
fluoxetina 20mg
E dorme-se uma tarde inteira como pedra
Dispensa-se todo o tipo de socialização
E sente-se milagrosamente melhor depois de acordar
Feliz! pode-se rir de tudo e todos.
Belo manjar pós-moderno...
A panaceia em suas vinte miligramas!
Sou um homem pós-moderno e feliz!
Mesmo sem fazer por merecer
Os louros pós-modernos da áurea juventude.

09-07-11

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A flor do passado

Eventualmente viremos aqui
E aqui falaremos da flor, do passado,
Do estado das coisas, do vi ou não vi,
Da morte que encerra este assunto escusado.

Será necessário pra sempre voltar
Já que nos dizem: 'Recordar é viver'
Mas mata e maltrata bem mais o lembrar
e este lembrar só nos faz mais morrer.

Não há mais o que dar, só resta partir
E assim apartados podemos viver
Mas não vale chorar, tampouco insistir
Viviamos a vida e deixemos morrer...


jun. 2011.

terça-feira, 5 de julho de 2011

(area non ædificandi )

Quero sempre evitar o agradável
E evito desse modo a decepção.
Dentro do espelho eu, a imagem, vejo o eu real
que não sabe que decepcionar-se faz parte,
que o consolo é saber que outras coisas aí vêm
(bem piores) e esta decepção não é a última.
Que os homens maus dormem bem à noite,
e os indiferentes dormem, se for o caso.
O caso de dormirem (de dormirem por acaso).

Evito sempre pensar em dormir.
Mas não me agrada saber que não durmo
quando penso em fazê-lo.
Evitando o agradável evito igualmente
o mal-estar de não ter o que fazer depois de satisfazer a vontade.
Não me agrada simplesmente.
Então evito.
Mas não faças isso que eu faço, adstante febre!

À custa de tudo isso, pesam-me as costas
À custa de tudo isso, caem as paredes
Mas não faças isso que eu faço, hic et nunc!
Evitar o agradável, mais que mortificar-se,
é mortificar-se duas vezes, digam-no os céus!
Viver, se já o é, não requer mais um reforço...
'Está tudo aí' - dizem - 'É tão claro como água!'
Mas nada é claro como água depois de n'água dar-se com os burros...

Bom que nada seja aqui plantado, tampouco erguido.


05-07-11

sábado, 2 de julho de 2011

Morre-se

Uma coisa interessante e também triste sobre a vida
é que a sua parte mais interessante simplesmente
não se deixa conhecer por parte de quem vive.
E morre-se a tentar encontrá-la, ao menos vislumbrá-la.
Sempre se morre.
Morre-se sempre,
e nada de achá-la.

02-07-11

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Dona-de-casa

Seria preciso ser mais do que isso, meu Deus? Por que será que urge essa necessidade de provocar e de conspurcar o que está, aparentemente, em ordem dentro de mim mesmo? Será suportável essa imbecilidade que impera e que me impele para os mais longínquos confins de meu ser, a qual não tenho por suportável? O que seria preciso fazer ou deixar de fazer para que, plenamente, me fosse dado o direito de me encontrar comigo mesmo sem ter de me despir de meus próprios pensamentos? Por que raios existe esta vontade acessional de desistir, de fugir, de me evadir, de mandar tudo às favas sempre que algo me obstaculiza o caminho? Por que nunca consigo seguir adiante depois de quebrar os dentes com o primeiro tropeço? Que medo de sofrer é este que me prende as pernas e me achincalha aquilo que dantes estava, como sói, em perfeita ordem, pronto para seguir caminho? Não sou tão forte quanto tu desejas, Senhor? Por que não consigo me mostrar digno das graças que recebo ou das mercês que me são feitas, estampando na visagem toda a gratidão e denodo em tentar seguir com o que me propus em levar a cabo? Por que me aferra de forma tão abrupta esta insatisfação que obscurece a boa-vontade ao considerar as coisas e as pessoas de modo que, para me sentir, ao menos, aliviado, tenho que me ver a boa distância de todas elas, evitá-las, mantê-las longe de mim e desprovidas de qualquer tipo de contato? Seria eu uma espécie de demônio que está a completar uma missão no mundo e tem de o fazer na completa solidão requerida para isso? Por que toda esta inexplicável aversão ao convívio com estes que por mim se interessam? Por que esta natureza tão esquiva, arisca, bravia e sub-reptícia que oferece estorvos a todo o tipo de aproximação de quem quer que seja? Por que esta cabeça que não cessa de pensar nas questões mais ínfimas, nos pormenores mais desimportantes, nas situações mais desagradáveis, nas formas mais complicadas e ininteligíveis de desdizer aquilo que nem sequer foi dito? Por que esta falta de interesse por qualquer coisa que seja, esta ausência de paixões e fixações que, em pessoas normais, redundam no que chamam de razão-de-viver? Por que não posso eu encontrar aquilo que, de fato, me atrai e me apaixona fazendo com que eu descubra que estou hipnotizado e cego não vendo mais nada a minha volta senão aquilo? Por que estas quebras de encanto, por que estas desilusões com as coisas pelas quais acho que me interesso? Por que diabos não me interesso? Por que esta indefinível indiferença por tudo e por todos que não me permite, em nenhum momento, reagir às diferentes situações e sentir o que eu realmente deveria sentir em relação a isto ou aquilo? Por que esta tremenda falta de simpatia por tudo e por todos? Por que não consigo me importar com alguma coisa qualquer que seja? Por que não consigo pôr cobro ao projetos que inicio a empreender? Por que todo o circo de horrores quando horror nenhum em verdade existe? Por que ser assim tão complicado? Desejaria que estas coisas fossem substancialmente mais simples, mas vejo que, em pedindo isto, somente estou, mais uma vez, tentando evitar o idôneo esforço que dá mate à sempiterna fome e faz com que tudo tenha mais graça se, porventura, vier a ser completado. Mas dize-me, é demasiado difícil alcançar esta tão almejada plenitude que, a muitos que por aí vejo, parece estar sempre agarrada aos ombros lhes servindo de alfaia? Por que este silêncio abissal que a mim mesmo retorna as perguntas que a ti faço? Por que estou a perder meu tempo endereçando a ti estas indagações todas? Por que gasto meu fôlego rearranjando sentenças e as dirigindo a um ser pelo qual não nutro o mínimo de consideração e nem sequer reconheço como ser existente? Bem, deixando de tolices, talvez as respostas não estejam em ti nem muito menos sejam elas tu; não poderei te as atribuir como graças alcançadas, serviços prestados ou preces atendidas, assim como tu não mas poderás dar, mas elas, sim, são e estão nestas coisas e pessoas que aí se mostram tão próximas, das quais eu me ponho a milhas de distância e me conservo, inutilmente, impenetrável. Por fim, chego à mais que óbvia e, para alguém como eu, inútil conclusão de que, concluir que o problema sou eu é o mesmo que dar mostras de o não querer resolver. Todos nós somos problemas; a solução são os outros, não? Para ser franco, eu mesmo não creio na minha própria premissa.

jun. 2011.

terça-feira, 28 de junho de 2011

N'importe quoi sur n'importe qui

Notre amitié, c'est un prototype de ce que jamais aura lieu
Les souvenirs meurent toujours avec l'aide du temps,
Parce que le temps détruit tout. Le temps détruit tout.
Et je reste ici en faisant les choses que je fais toujours...
Ni bien, ni mal. Ni mieux, ni pire.
Il y a des chose plus intéressantes pour toi.
Il y a des choses plus intéressantes pour moi.
Oui, j'suis sûr.

Il n'y a pas des surprises, il n'ya pas d'émotions fortes...
Il n'y a pas d'eau froide, il n'y a pas de désespoir,
Juste mes yeux qui voient le monde d'obscurité et de mediocrité
Juste mes yeux qui voient le monde d'imbecilité et de pauvreté
Juste mes yeux qui voient les haricots du dîner
Mai je ne me plains pas de la mêmeté
Je ne me plains pas de notre pauvre amitié
Restons ici.

28-06-11